agua potavel

 

 

                                           ÁGUA  POTÁVEL

 

 


Água potável: o imperativo da atualização



1. O passado

Os registros disponíveis das antigas civilizações do Nilo, Tigre - Eufrates, Creta, Índia indicam que, desde aqueles tempos remotos, existia a preocupação com a higiene e asseio da água destinada ao consumo humano. No Sânscrito, uma coletânea de conhecimentos médicos, escrita há aproximadamente 2000 AC, encontramos os primeiros registros do conceito de água pura e água suja, além dos métodos recomendados para sua purificação. Já naquela época, reconhecia-se a existência de águas melhores para serem ingeridas e outras para cozinhar alimentos. Hipócrates, nos seus escritos, sugeria a correlação entre abastecimento de água e saúde.

Conta-se que, quando César conquistou Alexandria, em 47 AC, encontrou na cidade aquedutos subterrâneos com a finalidade de trazer água do Rio Nilo para cisternas, nas quais ela se clarificava por sedimentação. As águas destinadas ao abastecimento das cidades gregas vinham de distância considerável e, na antiga Roma, existiam grandes aquedutos e sistemas de esgotos, muitos das quais sobreviveram até os dias de hoje. Nas Crônicas de Frontinus, está revelada a preocupação dos antigos romanos com a qualidade da água para consumo humano, especialmente nos aspectos de palatabilidade, cor e limpidez. As alterações que a qualidade estética da água induzia aos sentidos dos seres humanos levavam a sua aceitação ou a sua rejeição, transformando os sentidos em critério para selecionar a sua ingestão.

A preocupação com a qualidade da água para o consumo humano perdeu-se no conhecimento racional-dedutivo da Idade Média até o período pré-industrial, gerando, nessas fases da História judaico-cristã, o aparecimento das grandes epidemias. Corria o ano de 1848, quando John Snow demonstrou que, nas comunidades londrinas abastecidas pela água captada a jusante do lançamento dos esgotos domésticos, a mortalidade pela cólera era seis vezes superior quando comparada com a captação da água a montante dos lançamentos dos esgotos. Essa importante constatação epidemiológica guiou os sanitaristas da época na mobilização e no desenvolvimento das ações subseqüentes, destinadas a eliminar uma das principais causas de deterioração da saúde dos seres humanos e, no caso, produzida pela água contaminada.

O principal inimigo de então era a transmissão pela via hídrica dos agentes etiológicos animados, responsável pelas epidemias que dizimaram milhões de seres humanos, tornando, assim, o grande desafio da tecnologia da época, a redução da morbidade e letalidade geradas pelas enfermidades hídricas e pela enorme capacidade de infecção simultânea que produzia nas populações. A necessidade de uma resposta para eliminar ou neutralizar os danos à saúde pública, ocasionados pela exposição da comunidade aos riscos de epidemias gastrointestinais e outras enfermidades infecciosas devidas à água contaminada, estimulou o desenvolvimento e a implantação de sistemas de abastecimento de água integrados no trinômio: manancial, sistema produtivo (tratamento) e sistema distributivo(reservatórios e rede).

2. O presente

A concepção do tratamento da água também exige uma qualidade de manancial em termos de parâmetros estéticos e sanitários, compatível com os processos e as operações de coagulação/sedimentação - filtração e desinfecção além da manutenção do residual ao longo do sistema distributivo. Surgiu, então, o estabelecimento dos primeiros critérios de qualidade para mananciais fixando-se inicialmente os níveis máximos de colimetria, cor e turbidez possíveis para o tratamento da água. É o caso do nível máximo admissível de coliformes totais de 20.000 coli/100 ml, utilizado como indicativo da possibilidade extrema para se tratar uma água destinada ao consumo humano pelos métodos convencionais.

A base tecnológica do sistema público de tratamento convencional sustentou-se na sedimentação, filtração e desinfecção da água, na qual, a sedimentação tradicional atua muito mais como um auxiliar da filtração. Admite-se que esse conjunto de operações deve produzir uma água aceita pelos sentidos dos seres humanos, isenta dos microrganismos causadores das enfermidades hídricas e que não ocasionará efeitos agudos à saúde pública.

O consenso do pensamento sanitário vigente até os dias de hoje é que, para se eliminar um dos grandes vilões da humanidade - os efeitos agudos da água contaminada na saúde pública, existe tecnologia de tratamento de água e, assim, meios para eliminar as epidemias hídricas. Fundamentadas nesta premissa, as ações políticas preconizadas foram no sentido de estender ao máximo este benefício. Sem dúvida, a comprovação da eficiência epidemiológica dos sistemas de abastecimento para a saúde pública era relativamente simples, pela relação direta da presença de saneamento com a redução das doenças transmissíveis, especialmente constatada na redução dos coeficientes de mortalidade infantil post neo - natal. Contudo, a humanidade, nos dias atuais, convivendo entre o antigo e o moderno, entre o velho e o novo, embora não deva e não possa olvidar o compromisso de atender aos parâmetros estéticos e à eliminação da contaminação microbiológica, deve adicionar, a essa legítima preocupação, as ações destinadas a limitar os novos riscos à saúde pública: os efeitos crônicos da contaminação ambiental.

Com a introdução dessas novas variáveis que influenciam a qualidade da água para consumo humano em conjunto com a ampliação da capacidade de investigação, a introdução de novas técnicas de monitoramento da água e de estudos epidemiológicos, sobressaiu a limitação tecnológica dos tratamentos convencionais para retirar as microdoses tóxicas, sejam contaminantes químicos ou toxinas de origem biológica.

A Organização Mundial da Saúde1(ops cit 1, pag 56) revela que as toxinas liberadas pelas algas nos mananciais de abastecimentos podem chegar até a casa do consumidor, fato esse constatado em experimentos de laboratório, onde a coagulação com sulfato de alumínio, a filtração e a cloração provaram ser ineficientes para remover as toxinas das algas, inclusive empregando carvão ativado, evidentemente, sem o suficiente tempo de contato. Aliás, a progressiva eutrofização dos mananciais não protegidos e ricos em nutrientes é a causa principal a contribuir para a magnitude e intensidade do desenvolvimento das algas verde-azuladas(cianobacterias, algas azuis ou cianofíceas)) nas fontes de abastecimento de água.

conjunto desses fatores e a fragilidade tecnológica dos processos convencionais de tratamento na remoção das microdoses químicas tornam imperativo que a qualidade da água produzida na estação de tratamento esteja condicionada às características do manancial e, uma vez obtida a qualidade química ou biológica, ela deve ser garantida até o instante da sua ingestão nos domicílios.

3. Os riscos

A associação da qualidade da água aos efeitos agudos firmou-se no Século XIX e se difundiu na sociedade do Século XX, contribuindo significativamente para a redução da mortalidade geral e específica dos seres humanos até entrar em cena a intensa liberação dos compostos químicos na natureza. Para que se possa dimensionar a gravidade da questão, desde o início do Século XX até os dias atuais, foram sintetizados em laboratório aproximadamente dez milhões de compostos químicos em todo o mundo, dos quais cerca de 100.000(aproximadamente 1%), inorgânicos ou orgânicos, estão usualmente disponíveis no mercado consumidor, sendo que, a cada ano, são introduzidos entre 1000 a 2000 novos compostos.

Alguns destes produtos químicos possuem utilização direta como biocidas, fertilizantes ou na destruição de microrganismos, enquanto outros se constituem em substâncias básicas ou intermediárias empregadas na fabricação dos produtos finais destinados às múltiplas atividades dos seres humanos. Todos eles, de uma forma ou de outra, irão contaminar os recursos hídricos superficiais ou subterrâneos e comprometer os seus múltiplos usos. Além do mais, certos tipos de substâncias na água tendem a se associar às partículas e se acumular nos sedimentos e posteriormente nos organismos bênticos e daí penetrar na cadeia alimentar, provocando significativo risco para a vida aquática e para os seres humanos.

É oportuno salientar que existe uma diferença fundamental entre os riscos à saúde pública originários por contaminantes químicos tóxicos na água para consumo humano e aqueles oriundos da presença de microorganismos patogênicos. Ao contrário dos contaminantes microbiológicos, os químicos raramente causam efeitos agudos aos seres humanos, exceto quando ocasionados por intensa contaminação química no manancial ou por acidentes ao longo dos sistemas públicos de abastecimento de água. Na hipótese que isto ocorra, a tendência do consumidor é rejeitar o produto por apresentar características de sabor, odor e aparência indesejáveis.

Os problemas ocasionados pelos contaminantes químicos ou toxinas na água para consumo humano derivam do fato de que as microdoses, com características cumulativas e tóxicas, provocam efeitos adversos à saúde ao serem ingeridas por tempo prolongado. A vulnerabilidade humana a esses riscos é compreensível ao se saber que se dispõe de uma grande quantidade de informações científicas relativas aos efeitos, a curto prazo ou agudos, da exposição aos altos níveis de contaminantes mas o mesmo não ocorre com os efeitos crônicos.

A realidade é que muito pouco se conhece do que ocorre nos seres humanos expostos a baixas concentrações dos compostos químicos durante períodos de 20 a 30 anos. Ou seja, as informações toxicológicas das conseqüências agudas das substâncias químicas no metabolismo dos seres humanos e na biota aquática são razoavelmente conhecidos. Por outro lado, o conhecimento toxicológico e as conseqüências da bioacumulação gerada pelas ações a longo prazo ou crônicas na saúde dos seres humanos consistem numa grande interrogação para a epidemiologia, exigindo amplos programas de investigação e redobrados cuidados com as fontes de ingestão dos compostos químicos para os seres humanos, como a sua concentração nos mananciais de abastecimento, na água para consumo humano, nos alimentos, na exposição atmosférica e aos produtos perigosos.

A Organização das Nações Unidas revela que somente se conhece uma avaliação completa da toxicidade à saúde pública de uma quantidade inferior a 2% dos compostos químicos comercialmente produzidos. Recentemente a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico(OCDE), integrada pela maioria das 24 nações industrializadas da Europa Ocidental, a América do Norte, Japão, Austrália e Nova Zelândia, anunciou planos para a investigação prioritária da toxicidade e bioacumulação ambiental de 1500 substâncias químicas. A gravidade da dispersão dos compostos químicos na natureza e, por conseqüência, nos aqüíferos superficiais e subterrâneos, intranquiliza, tanto por sua bioacumulação nos ambientes aquáticos como pelos efeitos que, a longo prazo, ocasionam na saúde dos seres humanos.

Os inúmeros compostos químicos no ambiente potencializam uma eventual ação sinérgica, podendo ocasionar alterações deletérias irreversíveis no sistema nervoso(pelo fato das suas células serem insubstituíveis, ao contrario do que ocorre com as demais células do organismo humano), no sistema endócrino - responsável pela regulação de hormônios e no sistema imunológico. Os efeitos se refletem freqüentemente no aumento da incidência de câncer nas populações, defeitos congênitos perduráveis por diversas gerações, alterações genéticas e neurológicas.

A preocupação com essa temática pelas autoridades de saúde pública e ambientais dos principais países desenvolvidos tem sido uma constante. Em levantamento publicado nos Estados Unidos sobre a presença de sintéticos orgânicos químicos cancerígenos nos sistemas públicos de abastecimento de água(Kraybill,HF.1981) identificaram-se mais de 700 substâncias orgânicas, das quais, 20 cancerígenas, 23 suspeitas de serem cancerígenas, 18 promotoras de câncer e 56 mutagênicas. A Organização Mundial da Saúde nos seus documentos mais recentes sobre qualidade da água clama pela atenção a cerca de 14 substâncias químicas de interesse à saúde pública pelas características cancerígenas, como: )pireno,a arsênico, 1,2-dicloetano, cloreto de vinila, benzeno, benzeno( acrilamida, alaclor,1,2-dibromo-3-clopropano,1,3-diclopropeno,hexaclorobenzeno e subprodutos da desinfecção como bromatos,, 2,4,6-triclofenol, brodiclorometano e clorofórmio.

Com relação aos organismos de vida livre significativos para a qualidade da água dos sistemas públicos de abastecimento, têm-se os plânctons que consistem de organismos pequenos e microscópicos, flutuando ou em suspensão na coluna de água, compreendendo: as bactérias de vida livre, fungos, algas, os protozoários de vida livre, helmintos(rotíferos, nematóides entre outros) e, em certas etapas, as larvas de alguns insetos aquáticos e de peixes.

As algas comprometem, em dois aspectos, a água para consumo humano, sendo um deles de maior visibilidade e outro pouco discutido, respectivamente as questões de sabor, odor e as toxinas liberadas. No primeiro caso, existem algas que conferem odores aromáticos à água, assemelhando-se a certas flores ou verduras, como: gerânium( Arterionella), rabanete(Anabaena), capim ou grama(Microcystes), sabor de barro como as Chorella, Oscillatoria ou forte gosto de peixe como a Dinobryan. Por outro lado, existem algum organismos unicelulares, microscópicos e classificados como bactérias, como os Actinomicetos, que também produzem forte sabor de terra na água para consumo humano, com o agravante que a sua forma esporulada pode atravessar a barreira de tratamento e eclodir nos reservatórios domiciliares.

Atualmente se identificam mais de 13 variedades de toxinas, na sua maioria, provenientes das algas verde-azuladas(algas azuis, cianofíceas ou cianobactérias), as quais constituem uma estrutura cíclica contendo sete aminoácidos e que podem ser classificadas como(Santana,Célia):

hepatoxinas(polipeptídeos): toxinasÞ que causam intoxicações agudas ou crônicas, atingindo as células do fígado, podendo causar a morte de animais em horas ou dias. As principais espécies de algas verde-azuladas(cianobactérias ou cianofíceas) responsáveis pela produção dessas toxinas são: Microcystis aeruginosa, Microcystis viridis, Nodularia spumigena e a Cylindrospermopsis raciborskii(alcalóide).

Þ neurotoxinas(alcalóides) toxinas alcalóides que atingem o sistema neuro-muscular, podendo ocasionar a morte de animais em minutos, sendo produzidas principalmente pelas seguintes algas verdes azuladas(cianobactérias ou cianofíceas): Anabaena flos-aquae, Oscillatoria formosa, Aphanizomenon sp, Cylindrospermum sp

4. Efeitos adversos à saúde pública: alguns exemplos

No período de 1981 a 1992, nos Estados Unidos, constataram-se 132 eclosões de enfermidades agudas pela ingestão de água inadequada dos sistemas de abastecimento de água(Oterstetter,H e Zepeda, Francisco). As investigações efetuadas demonstraram que: cinqüenta eclosões foram atribuídas a Giardia, seis a Campylobacter, três a Shigella, um a Salmonela typhimurium, quatro a outras espécies de Salmonella, cinco a Hepatite A, um a Escherichia coli, um a grupos microbiológicos de cianobactéria, seis a vírus entéricos, quatro a Cryptosporidium, catorze a envenenamentos químicos e 34 por agentes etiológicos desconhecidos. O número de indivíduos que sofreram reflexos adversos à saúde(morbidade) por epidemias ocorridas ao longo desses onze anos foi da ordem de 49.295, dentre os quais, seis óbitos. Comparado com período anterior, na América Latina, entre os anos de 1992 a 1995, constata-se que ocorreu um milhão de casos de cólera com dez mil mortes.

Esse dado é revelador das distâncias sanitárias entre os mundos e em grande parte explica a preocupação das autoridades sanitárias dos países em processo de desenvolvimento com as doenças de transmissão hídrica, ou seja, com as doenças agudas, mas não justifica relegar ao ostracismo a preocupação com as enfermidades crônicas, com tendência a aumentar e em estreita correspondência com o grau de desenvolvimento industrial. Por outro lado, como já foi externado, a nossa realidade sanitária é contrastante pois, ao lado de doenças equacionáveis com o saneamento básico, surgem outras devidas à despreocupação das autoridades com os efeitos deletérios de largo prazo.

A estatística de saúde pública revela que ocorre má - formação congênita entre 2% e 3% dos recém nascidos. Do universo de enfermos com má-formação congênita, estima-se que 25% delas podem ser debitadas à causas genéticas; as outras 5% a 10% têm origem na exposição à radiação, vírus, medicamentos e o restante(entre 65% a 70%) à causas desconhecidas mas possivelmente associadas a fatores ambientais. Estudos desenvolvidos por Fagliano,J - Berry, Michael2 et all examinaram o aumento da incidência de leucemia entre mulheres com a ocorrência de compostos orgânicos voláteis(VOC) em sistemas públicos de abastecimento de água. A origem dos compostos orgânicos voláteis nos cursos de água superficial provém da contaminação industrial sofrida ao longo dos anos.

Mal de Alzheimer·

Nos primórdios da década de 1970, detectou-se em pacientes submetidos à diálise uma síndrome(ops cit 2, pag 136) conhecida como "demência da diálise", caracterizada por alteração comportamental, insanidade, distúrbio na fala, contração muscular e convulsões. Um fator comum, observado em todos os pacientes com essa síndrome, foi a constatação de elevada concentração de alumínio nos tecidos, especialmente no córtex cerebral. As investigações realizadas concluíram que havia uma associação entre os níveis de alumínio na água utilizada para preparar o fluído da diálise e a síndrome, ainda que não se descarte a possibilidade da contribuição do alumínio proveniente de outras fontes.

Essa e outras investigações, realizadas ou em andamento, sugerem uma influência do alumínio na etiologia de doenças neurodegenerativas, tais como o Mal de Parkinson e o Mal de Alzheimer. Possivelmente, deficiências nutricionais crônicas de cálcio e magnésio aumentam a absorção do alumínio, resultando na sua deposição nos neurônios, interferindo na sua estrutura e na formação de neurofibrilas obstruídas no cérebro.

Ainda que em caráter não conclusivo, a Organização Mundial da Saúde2 tem publicado estudos epidemiológicos que indicam evidências de que lesões cerebrais características do Mal de Alzheimer podem estar associadas ao alumínio na água para consumo humano dos sistemas públicos de abastecimento3 quando em concentrações superiores a 0,01 mg/l(ops cit 2, pag137,138).

Aromáticos polinucleares·

Os compostos aromáticos polinucleares(PAHs) compreendem um grande grupo de substâncias com estrutura molecular que incluem dois ou mais anéis aromáticos, como, por exemplo o )pireno(BaPs), indeno, ciclopentadieno(c,d)pireno, acenafteno,a benzeno( naftaleno, antraceno e outros. Alguns deles são poderosos indutores de câncer pireno e outros, como o naftaleno, podem até levar à morte pora como o benzeno anemia hemolítica aguda. Outros contaminantes, como os metais pesados, biocidas, radionuclídeos podem estar presentes nos mananciais de abastecimento, principalmente quando existe uma história de contaminação por água residuária doméstica e industrial ao longo de décadas.

Hormônios·

A Agência Ambiental Americana(USEPA) tem investigado a propriedade de certas substâncias químicas em alterar o sistema hormonal ou endócrino dos seres humanos, principalmente crianças. Imbuídos dessa preocupação e com base no Safe Drinking Water, a USEPA recentemente organizou um comitê consultivo integrado por representantes da indústria, da comunidade científica e técnica para identificar as substâncias químicas que podem influenciar o sistema endócrino, prejudicando o sistema produtivo masculino e feminino, examinando, também, a capacidade dessas substâncias em induzir o câncer e ocasionar danos à tiróide.

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Subprodutos da desinfecção

A inativação dos microrganismos patogênicos pela prática da desinfecção da água nos sistemas de abastecimento é de fundamental importância no elenco das medidas destinadas a preservar e promover a saúde pública, através da utilização de agentes químicos tais como: cloro, dióxido de cloro, cloraminas ou ozônio. Esses desinfetantes, poderosos biocidas, ao reagirem com outros constituintes na água, podem formar novos compostos químicos, alguns dos quais, com a capacidade de produzir a longo prazo efeitos potencialmente adversos aos seres humanos.

O conhecimento desse fato científico obriga às autoridades responsáveis pela saúde pública a reavaliar o impacto da desinfecção nos sistemas de abastecimento de água, não somente no aspecto da capacidade do agente desinfetante eliminar os microrganismos patogênicos(causadores de graves efeitos agudos) mas também, na capacidade de potencializar a formação de subprodutos químicos adversos à saúde(efeitos crônicos) dos seres humanos.

Existem inúmeros estudos epidemiológicos ou experimentos de laboratório registrados pela Organização Mundial da Saúde e pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos(USEPA) que demonstram evidências de correlação positiva, entre a ingestão de água com elevada concentração de subprodutos da cloração e a elevação das taxas de mortalidade por câncer ou inclusive, o aumento dos níveis de colesterol.

A analisar o último caso, investigação epidemiológica realizada nos Estados Unidos(ops. cit. 2, pag 800) com a concentração de cloro oscilando entre 0,2 e 1 mg/l observou-se que nas comunidades abastecidas por água clorada, eram mais elevados os níveis de colesterol e lipoproteinas de baixa densidade. Por sua vez, a presença das altas taxas de lipoproteina de alta densidade(HDC) e colesterol ocorreu na comunidade quando a concentração de cálcio era elevada na água do sistema público de abastecimento. Presume-se que a inter-relação do cloro com o cálcio afete os níveis de lipídios. As evidências dessa correlação positiva são tranqüilizantes para as águas superficiais brasileiras onde prevalecem águas com baixa concentração de cálcio, portanto agressivas e com tendências corrosivas e não com elevada concentração de cálcio e portanto, águas com tendências incrustantes.

Os principais subprodutos da cloração da água compreendem a família dos trihalometanos, em especial o clorofórmio(bromofórmio, dicloro metano, bromo diclorometano e clorofórmio), compostos químicos gerados a partir da matéria húmica ou fúlvica provenientes da decomposição da biota aquática. Um local no Brasil recomendável para a realização de pesquisas epidemiológicas e de remoção dos clorofórmio e outros trihalometanos(de formação instantânea e potencial) seria a capital do Estado do Amazonas(Manaus) que capta, trata por métodos convencionais e clora a água do Rio Negro, rica em matéria húmica. O atual valor guia da Organização Mundial da Saúde para o total de trihalometanos se baseia na extrapolação do aparecimento de tumores em ratos submetidos a ingestão de água potável com clorofórmio no período de dois anos.

Os estudos desenvolvidos com relação à natureza e toxicidade dos subprodutos da desinfecção, quando se aplica o cloro, foram intensamente pesquisados, ao contrário daqueles formados quando se utiliza como agente desinfetante o ozônio, dióxido de cloro e cloraminas. Sem olvidar os aspectos do custo-risco-benefício da cloração da água destinada ao consumo humano, deve-se observar que o uso de desinfetantes no tratamento da água resulta usualmente na formação de subprodutos químicos, muitos dos quais potencialmente perigosos. Portanto, ao se alertar para os riscos dos subprodutos da cloração não se propugna penalizá-la, mas aprofundar a discussão a respeito desse tema importante e promover a introdução de técnicas modernas para a remoção dos precursores.

·
Cianobactérias ou cianofíceas

As algas azuis(cianofíceas ou cianobactérias) podem, em certas condições, aumentar maciçamente nos cursos de água superficiais e formar florescimentos visíveis ou mesmo escumas. Embora desde há muito tempo se saíba dos efeitos tóxicos resultantes da ingestão daqueles florescimentos, nos últimos anos, possivelmente ocasionados pelo aumento da contaminação dos manancias e consequentemente maior aplicação de algicidas é que os riscos ficaram mais evidentes.

Existem alguns exemplos na literatura técnica que demonstram efeitos adversos à saúde pública provocados pela ingestão de toxinas de algas verde-azuladas. A maioria destes casos foi observada após a aplicação de sulfato de cobre em águas com elevada densidade fitoplanctônica. Compreensível, pois a aplicação constante do sulfato de cobre utilizado para controlar o desenvolvimento das algas não é recomendada porque, quando estas morrem, rompem a parede celular, liberando as toxinas do seu interior para o meio aquoso.

Epidemia de gastro e hepatoenterite ocasionada por algas ocorreu nos Estados Unidos em 1975, atingindo aproximadamente 63% da população conectada ao sistema público de abastecimento. A investigação realizada comprovou que a água distribuída à população estava isenta de bactérias, vírus patogênicos ou qualquer anormalidade química. Contudo, as análises biológicas realizadas demonstraram que o manancial continha elevada densidade de cianofíceas ou algas verde-azuladas( Schizothrix, Plectonema, Phormidium e Lynbya) flutuando na superfície do corpo de água e no interior da massa líquida após a aplicação do sulfato de cobre.

Outra epidemia4 de hepatoenterite provocada por toxinas das algas verde-azuladas foi constatada na Austrália em 1979. Os sintomas clínicos observados em crianças e adultos relacionaram danos no fígado, rins, intestinos além de vômitos, dor de cabeça, cólica abdominal, perda de sangue, diminuição dos níveis de glicose e perda de proteínas e cetonas na urina e desequilíbrio eletrolítico. O principal agente etiológico responsável por essa epidemia foi a Cylindrospermosis raciborskii que contém um alcalóide cistotóxico. Recentemente, o mecanismo bioquímico de ação deste a

lcalóide tem demonstrado inibir a síntese da proteina5 .

É oportuno esclarecer que a Microcystis aeruginosa e Microcystis lamelliformes(que transmitem odor de capim ou grama na água) são encontradas tanto no Reservatório da Billings como no Reservatório do Guarapiranga. Por outro lado, as espécies tóxicas da Cylidrospermosis raciborskii, Raphidiopsis sp e Limnothrix sp foram encontradas unicamente no Reservatório Billings. Destaca-se que, no Reservatório do Guarapiranga, utilizado para abastecimento público de significativa parcela da cidade de São Paulo, existe a rotina de aplicação do sulfato de cobre e, consequentemente, potencializa a liberação de hepatotoxinas no manancial.

5. Conclusões

i. Os processos convencionais destinados ao tratamento da água para consumo humano, não removem as microdoses originárias da dispersão ambiental das substâncias químicas no ambiente ou toxinas resultantes da proliferação de algas.

ii. A adequação da água dos sistemas públicos de abastecimento para consumo humano aos Padrões de Qualidade podem ser inexeqüíveis pelos seguintes riscos à saúde pública:

contaminação física, química ou biológica do manancial resultante de· atividade antrópica;

incrementação das neurotoxinas ou hepatotoxinas· provenientes das algas, como resultado da destruição das suas células após aplicação de algicida;

formação de subprodutos durante a desinfecção· da água, alguns com potencial cancerígeno, tais como o clorofórmio e outros trihalometanos;

infiltração de contaminantes domésticos ou industriais· na rede de distribuição de água, especialmente em áreas que operam com pressão negativa;

liberação de contaminantes por lixiviação de material· construtivo das tubulações, muitos dos quais danosos no aspecto estético ou econômico, mas não sanitário;

proteção e limpeza inadequada dos· Reservatórios de Água;

operação e manutenção do sistema de· . abastecimento deficiente ou realizada com recursos humanos dotados de treinamento insuficiente.

iii. É necessário explicitar que a tecnologia convencional de tratamento de água não remove as microdoses tóxicas e tem, como finalidade precípua, a clarificação e destruição dos microrganismos patogênicos, eliminando a possibilidade da água atuar como veículo de enfermidades agudas. Deve-se também destacar que a existência de sistemas públicos de abastecimento de água, por si só, não é garantia automática de qualidade.

iv. As enfermidades crônicas geradas pela ingestão, ao longo de décadas, das microconcentrações de contaminantes, tanto provenientes do manancial como de subprodutos da desinfecção, somente podem ser removidas através de tratamento avançados. Todavia, para que isto seja viável, tem-se que desenvolver pesquisas em escala piloto para avaliar se os contaminantes podem ou não serem removidos e, caso positivo, qual o nível factível desta remoção. Citam-se como opções de tratamento a adoção de leitos de carvão ativados com suficiente tempo de contato, osmose reversa, eletrodiálise ou catálise heterogênea.

v. A Organização Mundial da Saúde, nos seus Guias para Qualidade da Água Potável, alerta que a aplicação de sulfato de cobre para controlar a proliferação das algas promove a liberação, no meio, de toxinas(neurotoxinas ou hepatoxinas)6 e que os tratamentos convencionais são de êxito duvidoso ou mesmo insuficientes para removê-las, inclusive, mesmo empregando o carvão ativado da forma convencional.

vi. A desinfecção da água para consumo humano pelo cloro, reage com as substâncias húmicas e fúlvicas resultantes da decomposição da biota produzindo, no efluente final e ao longo do sistema de distribuição, o clorofórmio e outros trihalometanos, com potencial cancerígeno. Embora outros desinfetantes também produzam subprodutos da desinfecção de efeitos adversos à saúde, sem dúvida, a questão da cloração foi a mais estudada e existe tecnologia disponível para a remoção dos precursores, como por exemplo, através de leitos de carvão ativado com suficiente tempo de contato. Contudo, no Brasil, muito pouco se conhece a respeito de investigações efetuadas acerca dos níveis e da remoção dos trihalometanos(THM) nos sistemas públicos de abastecimento de água, vinculados a estudos epidemiológicos que examinem o aumento de concentração de THM com a elevação da incidência de câncer na comunidade.

vii. O monitoramento da qualidade da água dos sistemas públicos de abastecimento deve atualizar os instrumentos de diagnósticos, não atestando a qualidade exclusivamente com base nos tradicionais parâmetros físico-químicos e bacteriológicos. Com a ampliação do conhecimento científico, é inadmissível que os sistemas de água não realizem avaliação dos níveis de contaminação do sedimento e da água superficial dos mananciais, utilizando ensaios de toxicidade, de mutagenicidade, biomarcadores, exame de sulfetos acidos voláteis(AVS) e carbono orgânico total(TOC). A constatação de um ecossistema sadio sinaliza uma qualidade de água factível de ser tratada para posterior consumo pelos seres humanos.

viii. O resultado dos exames na água dos mananciais superficiais, dos subprodutos da cloração e produtos químicos suspeitos de ocasionar danos à saúde pública deve estar associado ao acompanhamento de enfermidades a longo prazo como forma de garantir a confiabilidade da água destinada às comunidades.

ix. A responsabilidade pela qualidade de água para consumo humano cabe a quem a produz e distribui - no caso, o sistema público de abastecimento. Salienta-se que existe uma enorme defasagem entre o período de distribuição da água e sua ingestão pelo consumidor com a verificação de eventual efeito adverso à saúde do consumidor e, por isso, as ações de controle da qualidade da água devem ser essencialmente preventivas e com atuação desde o manancial até a conexão de entrada da casa do usuário. O Princípio da Precaução justifica a existência de uma AUDITORIA AMBIENTAL INDEPENDENTE, assessorada por um Conselho de Representantes da comunidade técnica e científica da sociedade civil, certificando, através de inspeções, análises e estudos epidemiológicos, a qualidade da água do produtor.

*Ben Hur Luttenbarck Batalha é engenheiro, foi Secretário do Meio Ambiente e é considerado hoje um dos maiores especialistas brasileiros em qualidade da água.

 

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