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Água potável: o imperativo
da atualização
1. O passado
Os registros disponíveis das antigas civilizações do Nilo, Tigre -
Eufrates, Creta, Índia indicam que, desde aqueles tempos remotos, existia
a preocupação com a higiene e asseio da água destinada ao consumo
humano. No Sânscrito, uma coletânea de conhecimentos médicos, escrita
há aproximadamente 2000 AC, encontramos os primeiros registros do
conceito de água pura e água suja, além dos métodos recomendados para
sua purificação. Já naquela época, reconhecia-se a existência de
águas melhores para serem ingeridas e outras para cozinhar alimentos.
Hipócrates, nos seus escritos, sugeria a correlação entre abastecimento
de água e saúde.
Conta-se que, quando César conquistou Alexandria, em 47 AC, encontrou na
cidade aquedutos subterrâneos com a finalidade de trazer água do Rio
Nilo para cisternas, nas quais ela se clarificava por sedimentação. As
águas destinadas ao abastecimento das cidades gregas vinham de distância
considerável e, na antiga Roma, existiam grandes aquedutos e sistemas de
esgotos, muitos das quais sobreviveram até os dias de hoje. Nas Crônicas
de Frontinus, está revelada a preocupação dos antigos romanos com a
qualidade da água para consumo humano, especialmente nos aspectos de
palatabilidade, cor e limpidez. As alterações que a qualidade estética
da água induzia aos sentidos dos seres humanos levavam a sua aceitação
ou a sua rejeição, transformando os sentidos em critério para
selecionar a sua ingestão.
A preocupação com a qualidade da água para o consumo humano perdeu-se
no conhecimento racional-dedutivo da Idade Média até o período
pré-industrial, gerando, nessas fases da História judaico-cristã, o
aparecimento das grandes epidemias. Corria o ano de 1848, quando John Snow
demonstrou que, nas comunidades londrinas abastecidas pela água captada a
jusante do lançamento dos esgotos domésticos, a mortalidade pela cólera
era seis vezes superior quando comparada com a captação da água a
montante dos lançamentos dos esgotos. Essa importante constatação
epidemiológica guiou os sanitaristas da época na mobilização e no
desenvolvimento das ações subseqüentes, destinadas a eliminar uma das
principais causas de deterioração da saúde dos seres humanos e, no
caso, produzida pela água contaminada.
O principal inimigo de então era a transmissão pela via hídrica dos
agentes etiológicos animados, responsável pelas epidemias que dizimaram
milhões de seres humanos, tornando, assim, o grande desafio da tecnologia
da época, a redução da morbidade e letalidade geradas pelas
enfermidades hídricas e pela enorme capacidade de infecção simultânea
que produzia nas populações. A necessidade de uma resposta para eliminar
ou neutralizar os danos à saúde pública, ocasionados pela exposição
da comunidade aos riscos de epidemias gastrointestinais e outras
enfermidades infecciosas devidas à água contaminada, estimulou o
desenvolvimento e a implantação de sistemas de abastecimento de água
integrados no trinômio: manancial, sistema produtivo (tratamento) e
sistema distributivo(reservatórios e rede).
2. O presente
A concepção do tratamento da água também exige uma qualidade de
manancial em termos de parâmetros estéticos e sanitários, compatível
com os processos e as operações de coagulação/sedimentação -
filtração e desinfecção além da manutenção do residual ao longo do
sistema distributivo. Surgiu, então, o estabelecimento dos primeiros
critérios de qualidade para mananciais fixando-se inicialmente os níveis
máximos de colimetria, cor e turbidez possíveis para o tratamento da
água. É o caso do nível máximo admissível de coliformes totais de
20.000 coli/100 ml, utilizado como indicativo da possibilidade extrema
para se tratar uma água destinada ao consumo humano pelos métodos
convencionais.
A base tecnológica do sistema público de tratamento convencional
sustentou-se na sedimentação, filtração e desinfecção da água, na
qual, a sedimentação tradicional atua muito mais como um auxiliar da
filtração. Admite-se que esse conjunto de operações deve produzir uma
água aceita pelos sentidos dos seres humanos, isenta dos microrganismos
causadores das enfermidades hídricas e que não ocasionará efeitos
agudos à saúde pública.
O consenso do pensamento sanitário vigente até os dias de hoje é que,
para se eliminar um dos grandes vilões da humanidade - os efeitos agudos
da água contaminada na saúde pública, existe tecnologia de tratamento
de água e, assim, meios para eliminar as epidemias hídricas.
Fundamentadas nesta premissa, as ações políticas preconizadas foram no
sentido de estender ao máximo este benefício. Sem dúvida, a
comprovação da eficiência epidemiológica dos sistemas de abastecimento
para a saúde pública era relativamente simples, pela relação direta da
presença de saneamento com a redução das doenças transmissíveis,
especialmente constatada na redução dos coeficientes de mortalidade
infantil post neo - natal. Contudo, a humanidade, nos dias atuais,
convivendo entre o antigo e o moderno, entre o velho e o novo, embora não
deva e não possa olvidar o compromisso de atender aos parâmetros
estéticos e à eliminação da contaminação microbiológica, deve
adicionar, a essa legítima preocupação, as ações destinadas a limitar
os novos riscos à saúde pública: os efeitos crônicos da contaminação
ambiental.
Com a introdução dessas novas variáveis que influenciam a qualidade da
água para consumo humano em conjunto com a ampliação da capacidade de
investigação, a introdução de novas técnicas de monitoramento da
água e de estudos epidemiológicos, sobressaiu a limitação tecnológica
dos tratamentos convencionais para retirar as microdoses tóxicas, sejam
contaminantes químicos ou toxinas de origem biológica.
A Organização Mundial da Saúde1(ops cit 1, pag 56) revela que as
toxinas liberadas pelas algas nos mananciais de abastecimentos podem
chegar até a casa do consumidor, fato esse constatado em experimentos de
laboratório, onde a coagulação com sulfato de alumínio, a filtração
e a cloração provaram ser ineficientes para remover as toxinas das
algas, inclusive empregando carvão ativado, evidentemente, sem o
suficiente tempo de contato. Aliás, a progressiva eutrofização dos
mananciais não protegidos e ricos em nutrientes é a causa principal a
contribuir para a magnitude e intensidade do desenvolvimento das algas
verde-azuladas(cianobacterias, algas azuis ou cianofíceas)) nas fontes de
abastecimento de água.
conjunto desses fatores e a fragilidade tecnológica dos processos
convencionais de tratamento na remoção das microdoses químicas tornam
imperativo que a qualidade da água produzida na estação de tratamento
esteja condicionada às características do manancial e, uma vez obtida a
qualidade química ou biológica, ela deve ser garantida até o instante
da sua ingestão nos domicílios.
3. Os riscos
A associação da qualidade da água aos efeitos agudos firmou-se no
Século XIX e se difundiu na sociedade do Século XX, contribuindo
significativamente para a redução da mortalidade geral e específica dos
seres humanos até entrar em cena a intensa liberação dos compostos
químicos na natureza. Para que se possa dimensionar a gravidade da
questão, desde o início do Século XX até os dias atuais, foram
sintetizados em laboratório aproximadamente dez milhões de compostos
químicos em todo o mundo, dos quais cerca de 100.000(aproximadamente 1%),
inorgânicos ou orgânicos, estão usualmente disponíveis no mercado
consumidor, sendo que, a cada ano, são introduzidos entre 1000 a 2000
novos compostos.
Alguns destes produtos químicos possuem utilização direta como
biocidas, fertilizantes ou na destruição de microrganismos, enquanto
outros se constituem em substâncias básicas ou intermediárias
empregadas na fabricação dos produtos finais destinados às múltiplas
atividades dos seres humanos. Todos eles, de uma forma ou de outra, irão
contaminar os recursos hídricos superficiais ou subterrâneos e
comprometer os seus múltiplos usos. Além do mais, certos tipos de
substâncias na água tendem a se associar às partículas e se acumular
nos sedimentos e posteriormente nos organismos bênticos e daí penetrar
na cadeia alimentar, provocando significativo risco para a vida aquática
e para os seres humanos.
É oportuno salientar que existe uma diferença fundamental entre os
riscos à saúde pública originários por contaminantes químicos
tóxicos na água para consumo humano e aqueles oriundos da presença de
microorganismos patogênicos. Ao contrário dos contaminantes
microbiológicos, os químicos raramente causam efeitos agudos aos seres
humanos, exceto quando ocasionados por intensa contaminação química no
manancial ou por acidentes ao longo dos sistemas públicos de
abastecimento de água. Na hipótese que isto ocorra, a tendência do
consumidor é rejeitar o produto por apresentar características de sabor,
odor e aparência indesejáveis.
Os problemas ocasionados pelos contaminantes químicos ou toxinas na água
para consumo humano derivam do fato de que as microdoses, com
características cumulativas e tóxicas, provocam efeitos adversos à
saúde ao serem ingeridas por tempo prolongado. A vulnerabilidade humana a
esses riscos é compreensível ao se saber que se dispõe de uma grande
quantidade de informações científicas relativas aos efeitos, a curto
prazo ou agudos, da exposição aos altos níveis de contaminantes mas o
mesmo não ocorre com os efeitos crônicos.
A realidade é que muito pouco se conhece do que ocorre nos seres humanos
expostos a baixas concentrações dos compostos químicos durante
períodos de 20 a 30 anos. Ou seja, as informações toxicológicas das
conseqüências agudas das substâncias químicas no metabolismo dos seres
humanos e na biota aquática são razoavelmente conhecidos. Por outro
lado, o conhecimento toxicológico e as conseqüências da bioacumulação
gerada pelas ações a longo prazo ou crônicas na saúde dos seres
humanos consistem numa grande interrogação para a epidemiologia,
exigindo amplos programas de investigação e redobrados cuidados com as
fontes de ingestão dos compostos químicos para os seres humanos, como a
sua concentração nos mananciais de abastecimento, na água para consumo
humano, nos alimentos, na exposição atmosférica e aos produtos
perigosos.
A Organização das Nações Unidas revela que somente se conhece uma
avaliação completa da toxicidade à saúde pública de uma quantidade
inferior a 2% dos compostos químicos comercialmente produzidos.
Recentemente a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico(OCDE), integrada pela maioria das 24 nações industrializadas
da Europa Ocidental, a América do Norte, Japão, Austrália e Nova
Zelândia, anunciou planos para a investigação prioritária da
toxicidade e bioacumulação ambiental de 1500 substâncias químicas. A
gravidade da dispersão dos compostos químicos na natureza e, por
conseqüência, nos aqüíferos superficiais e subterrâneos,
intranquiliza, tanto por sua bioacumulação nos ambientes aquáticos como
pelos efeitos que, a longo prazo, ocasionam na saúde dos seres humanos.
Os inúmeros compostos químicos no ambiente potencializam uma eventual
ação sinérgica, podendo ocasionar alterações deletérias
irreversíveis no sistema nervoso(pelo fato das suas células serem
insubstituíveis, ao contrario do que ocorre com as demais células do
organismo humano), no sistema endócrino - responsável pela regulação
de hormônios e no sistema imunológico. Os efeitos se refletem
freqüentemente no aumento da incidência de câncer nas populações,
defeitos congênitos perduráveis por diversas gerações, alterações
genéticas e neurológicas.
A preocupação com essa temática pelas autoridades de saúde pública e
ambientais dos principais países desenvolvidos tem sido uma constante. Em
levantamento publicado nos Estados Unidos sobre a presença de sintéticos
orgânicos químicos cancerígenos nos sistemas públicos de abastecimento
de água(Kraybill,HF.1981) identificaram-se mais de 700 substâncias
orgânicas, das quais, 20 cancerígenas, 23 suspeitas de serem
cancerígenas, 18 promotoras de câncer e 56 mutagênicas. A Organização
Mundial da Saúde nos seus documentos mais recentes sobre qualidade da
água clama pela atenção a cerca de 14 substâncias químicas de
interesse à saúde pública pelas características cancerígenas, como: )pireno,a
arsênico, 1,2-dicloetano, cloreto de vinila, benzeno, benzeno( acrilamida,
alaclor,1,2-dibromo-3-clopropano,1,3-diclopropeno,hexaclorobenzeno e
subprodutos da desinfecção como bromatos,, 2,4,6-triclofenol,
brodiclorometano e clorofórmio.
Com relação aos organismos de vida livre significativos para a qualidade
da água dos sistemas públicos de abastecimento, têm-se os plânctons
que consistem de organismos pequenos e microscópicos, flutuando ou em
suspensão na coluna de água, compreendendo: as bactérias de vida livre,
fungos, algas, os protozoários de vida livre, helmintos(rotíferos,
nematóides entre outros) e, em certas etapas, as larvas de alguns insetos
aquáticos e de peixes.
As algas comprometem, em dois aspectos, a água para consumo humano, sendo
um deles de maior visibilidade e outro pouco discutido, respectivamente as
questões de sabor, odor e as toxinas liberadas. No primeiro caso, existem
algas que conferem odores aromáticos à água, assemelhando-se a certas
flores ou verduras, como: gerânium( Arterionella), rabanete(Anabaena),
capim ou grama(Microcystes), sabor de barro como as Chorella, Oscillatoria
ou forte gosto de peixe como a Dinobryan. Por outro lado, existem algum
organismos unicelulares, microscópicos e classificados como bactérias,
como os Actinomicetos, que também produzem forte sabor de terra na água
para consumo humano, com o agravante que a sua forma esporulada pode
atravessar a barreira de tratamento e eclodir nos reservatórios
domiciliares.
Atualmente se identificam mais de 13 variedades de toxinas, na sua
maioria, provenientes das algas verde-azuladas(algas azuis, cianofíceas
ou cianobactérias), as quais constituem uma estrutura cíclica contendo
sete aminoácidos e que podem ser classificadas como(Santana,Célia):
hepatoxinas(polipeptídeos): toxinasÞ que causam intoxicações agudas ou
crônicas, atingindo as células do fígado, podendo causar a morte de
animais em horas ou dias. As principais espécies de algas verde-azuladas(cianobactérias
ou cianofíceas) responsáveis pela produção dessas toxinas são:
Microcystis aeruginosa, Microcystis viridis, Nodularia spumigena e a
Cylindrospermopsis raciborskii(alcalóide).
Þ neurotoxinas(alcalóides) toxinas alcalóides que atingem o sistema
neuro-muscular, podendo ocasionar a morte de animais em minutos, sendo
produzidas principalmente pelas seguintes algas verdes azuladas(cianobactérias
ou cianofíceas): Anabaena flos-aquae, Oscillatoria formosa, Aphanizomenon
sp, Cylindrospermum sp
4. Efeitos adversos à saúde
pública: alguns exemplos
No período de 1981 a 1992, nos Estados Unidos, constataram-se 132
eclosões de enfermidades agudas pela ingestão de água inadequada dos
sistemas de abastecimento de água(Oterstetter,H e Zepeda, Francisco). As
investigações efetuadas demonstraram que: cinqüenta eclosões foram
atribuídas a Giardia, seis a Campylobacter, três a Shigella, um a
Salmonela typhimurium, quatro a outras espécies de Salmonella, cinco a
Hepatite A, um a Escherichia coli, um a grupos microbiológicos de
cianobactéria, seis a vírus entéricos, quatro a Cryptosporidium,
catorze a envenenamentos químicos e 34 por agentes etiológicos
desconhecidos. O número de indivíduos que sofreram reflexos adversos à
saúde(morbidade) por epidemias ocorridas ao longo desses onze anos foi da
ordem de 49.295, dentre os quais, seis óbitos. Comparado com período
anterior, na América Latina, entre os anos de 1992 a 1995, constata-se
que ocorreu um milhão de casos de cólera com dez mil mortes.
Esse dado é revelador das distâncias sanitárias entre os mundos e em
grande parte explica a preocupação das autoridades sanitárias dos
países em processo de desenvolvimento com as doenças de transmissão
hídrica, ou seja, com as doenças agudas, mas não justifica relegar ao
ostracismo a preocupação com as enfermidades crônicas, com tendência a
aumentar e em estreita correspondência com o grau de desenvolvimento
industrial. Por outro lado, como já foi externado, a nossa realidade
sanitária é contrastante pois, ao lado de doenças equacionáveis com o
saneamento básico, surgem outras devidas à despreocupação das
autoridades com os efeitos deletérios de largo prazo.
A estatística de saúde pública revela que ocorre má - formação
congênita entre 2% e 3% dos recém nascidos. Do universo de enfermos com
má-formação congênita, estima-se que 25% delas podem ser debitadas à
causas genéticas; as outras 5% a 10% têm origem na exposição à
radiação, vírus, medicamentos e o restante(entre 65% a 70%) à causas
desconhecidas mas possivelmente associadas a fatores ambientais. Estudos
desenvolvidos por Fagliano,J - Berry, Michael2 et all examinaram o aumento
da incidência de leucemia entre mulheres com a ocorrência de compostos
orgânicos voláteis(VOC) em sistemas públicos de abastecimento de água.
A origem dos compostos orgânicos voláteis nos cursos de água
superficial provém da contaminação industrial sofrida ao longo dos
anos.
Mal de Alzheimer·
Nos primórdios da década de 1970, detectou-se em pacientes submetidos à
diálise uma síndrome(ops cit 2, pag 136) conhecida como "demência
da diálise", caracterizada por alteração comportamental,
insanidade, distúrbio na fala, contração muscular e convulsões. Um
fator comum, observado em todos os pacientes com essa síndrome, foi a
constatação de elevada concentração de alumínio nos tecidos,
especialmente no córtex cerebral. As investigações realizadas
concluíram que havia uma associação entre os níveis de alumínio na
água utilizada para preparar o fluído da diálise e a síndrome, ainda
que não se descarte a possibilidade da contribuição do alumínio
proveniente de outras fontes.
Essa e outras investigações, realizadas ou em andamento, sugerem uma
influência do alumínio na etiologia de doenças neurodegenerativas, tais
como o Mal de Parkinson e o Mal de Alzheimer. Possivelmente, deficiências
nutricionais crônicas de cálcio e magnésio aumentam a absorção do
alumínio, resultando na sua deposição nos neurônios, interferindo na
sua estrutura e na formação de neurofibrilas obstruídas no cérebro.
Ainda que em caráter não conclusivo, a Organização Mundial da Saúde2
tem publicado estudos epidemiológicos que indicam evidências de que
lesões cerebrais características do Mal de Alzheimer podem estar
associadas ao alumínio na água para consumo humano dos sistemas
públicos de abastecimento3 quando em concentrações superiores a 0,01
mg/l(ops cit 2, pag137,138).
Aromáticos polinucleares·
Os compostos aromáticos polinucleares(PAHs) compreendem um grande grupo
de substâncias com estrutura molecular que incluem dois ou mais anéis
aromáticos, como, por exemplo o )pireno(BaPs), indeno, ciclopentadieno(c,d)pireno,
acenafteno,a benzeno( naftaleno, antraceno e outros. Alguns deles são
poderosos indutores de câncer pireno e outros, como o naftaleno, podem
até levar à morte pora como o benzeno anemia hemolítica aguda. Outros
contaminantes, como os metais pesados, biocidas, radionuclídeos podem
estar presentes nos mananciais de abastecimento, principalmente quando
existe uma história de contaminação por água residuária doméstica e
industrial ao longo de décadas.
Hormônios·
A Agência Ambiental Americana(USEPA) tem investigado a propriedade de
certas substâncias químicas em alterar o sistema hormonal ou endócrino
dos seres humanos, principalmente crianças. Imbuídos dessa preocupação
e com base no Safe Drinking Water, a USEPA recentemente organizou um
comitê consultivo integrado por representantes da indústria, da
comunidade científica e técnica para identificar as substâncias
químicas que podem influenciar o sistema endócrino, prejudicando o
sistema produtivo masculino e feminino, examinando, também, a capacidade
dessas substâncias em induzir o câncer e ocasionar danos à tiróide.
· Subprodutos da desinfecção
A inativação dos microrganismos patogênicos pela prática da
desinfecção da água nos sistemas de abastecimento é de fundamental
importância no elenco das medidas destinadas a preservar e promover a
saúde pública, através da utilização de agentes químicos tais como:
cloro, dióxido de cloro, cloraminas ou ozônio. Esses desinfetantes,
poderosos biocidas, ao reagirem com outros constituintes na água, podem
formar novos compostos químicos, alguns dos quais, com a capacidade de
produzir a longo prazo efeitos potencialmente adversos aos seres humanos.
O conhecimento desse fato científico obriga às autoridades responsáveis
pela saúde pública a reavaliar o impacto da desinfecção nos sistemas
de abastecimento de água, não somente no aspecto da capacidade do agente
desinfetante eliminar os microrganismos patogênicos(causadores de graves
efeitos agudos) mas também, na capacidade de potencializar a formação
de subprodutos químicos adversos à saúde(efeitos crônicos) dos seres
humanos.
Existem inúmeros estudos epidemiológicos ou experimentos de laboratório
registrados pela Organização Mundial da Saúde e pela Agência de
Proteção Ambiental dos Estados Unidos(USEPA) que demonstram evidências
de correlação positiva, entre a ingestão de água com elevada
concentração de subprodutos da cloração e a elevação das taxas de
mortalidade por câncer ou inclusive, o aumento dos níveis de colesterol.
A analisar o último caso, investigação epidemiológica realizada nos
Estados Unidos(ops. cit. 2, pag 800) com a concentração de cloro
oscilando entre 0,2 e 1 mg/l observou-se que nas comunidades abastecidas
por água clorada, eram mais elevados os níveis de colesterol e
lipoproteinas de baixa densidade. Por sua vez, a presença das altas taxas
de lipoproteina de alta densidade(HDC) e colesterol ocorreu na comunidade
quando a concentração de cálcio era elevada na água do sistema
público de abastecimento. Presume-se que a inter-relação do cloro com o
cálcio afete os níveis de lipídios. As evidências dessa correlação
positiva são tranqüilizantes para as águas superficiais brasileiras
onde prevalecem águas com baixa concentração de cálcio, portanto
agressivas e com tendências corrosivas e não com elevada concentração
de cálcio e portanto, águas com tendências incrustantes.
Os principais subprodutos da cloração da água compreendem a família
dos trihalometanos, em especial o clorofórmio(bromofórmio, dicloro
metano, bromo diclorometano e clorofórmio), compostos químicos gerados a
partir da matéria húmica ou fúlvica provenientes da decomposição da
biota aquática. Um local no Brasil recomendável para a realização de
pesquisas epidemiológicas e de remoção dos clorofórmio e outros
trihalometanos(de formação instantânea e potencial) seria a capital do
Estado do Amazonas(Manaus) que capta, trata por métodos convencionais e
clora a água do Rio Negro, rica em matéria húmica. O atual valor guia
da Organização Mundial da Saúde para o total de trihalometanos se
baseia na extrapolação do aparecimento de tumores em ratos submetidos a
ingestão de água potável com clorofórmio no período de dois anos.
Os estudos desenvolvidos com relação à natureza e toxicidade dos
subprodutos da desinfecção, quando se aplica o cloro, foram intensamente
pesquisados, ao contrário daqueles formados quando se utiliza como agente
desinfetante o ozônio, dióxido de cloro e cloraminas. Sem olvidar os
aspectos do custo-risco-benefício da cloração da água destinada ao
consumo humano, deve-se observar que o uso de desinfetantes no tratamento
da água resulta usualmente na formação de subprodutos químicos, muitos
dos quais potencialmente perigosos. Portanto, ao se alertar para os riscos
dos subprodutos da cloração não se propugna penalizá-la, mas
aprofundar a discussão a respeito desse tema importante e promover a
introdução de técnicas modernas para a remoção dos precursores.
· Cianobactérias ou cianofíceas
As algas azuis(cianofíceas ou cianobactérias) podem, em certas
condições, aumentar maciçamente nos cursos de água superficiais e
formar florescimentos visíveis ou mesmo escumas. Embora desde há muito
tempo se saíba dos efeitos tóxicos resultantes da ingestão daqueles
florescimentos, nos últimos anos, possivelmente ocasionados pelo aumento
da contaminação dos manancias e consequentemente maior aplicação de
algicidas é que os riscos ficaram mais evidentes.
Existem alguns exemplos na literatura técnica que demonstram efeitos
adversos à saúde pública provocados pela ingestão de toxinas de algas
verde-azuladas. A maioria destes casos foi observada após a aplicação
de sulfato de cobre em águas com elevada densidade fitoplanctônica.
Compreensível, pois a aplicação constante do sulfato de cobre utilizado
para controlar o desenvolvimento das algas não é recomendada porque,
quando estas morrem, rompem a parede celular, liberando as toxinas do seu
interior para o meio aquoso.
Epidemia de gastro e hepatoenterite ocasionada por algas ocorreu nos
Estados Unidos em 1975, atingindo aproximadamente 63% da população
conectada ao sistema público de abastecimento. A investigação realizada
comprovou que a água distribuída à população estava isenta de
bactérias, vírus patogênicos ou qualquer anormalidade química.
Contudo, as análises biológicas realizadas demonstraram que o manancial
continha elevada densidade de cianofíceas ou algas verde-azuladas(
Schizothrix, Plectonema, Phormidium e Lynbya) flutuando na superfície do
corpo de água e no interior da massa líquida após a aplicação do
sulfato de cobre.
Outra epidemia4 de hepatoenterite provocada por toxinas das algas
verde-azuladas foi constatada na Austrália em 1979. Os sintomas clínicos
observados em crianças e adultos relacionaram danos no fígado, rins,
intestinos além de vômitos, dor de cabeça, cólica abdominal, perda de
sangue, diminuição dos níveis de glicose e perda de proteínas e
cetonas na urina e desequilíbrio eletrolítico. O principal agente
etiológico responsável por essa epidemia foi a Cylindrospermosis
raciborskii que contém um alcalóide cistotóxico. Recentemente, o
mecanismo bioquímico de ação deste a
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
lcalóide tem demonstrado inibir a
síntese da proteina5 .
É oportuno esclarecer que a Microcystis aeruginosa e Microcystis
lamelliformes(que transmitem odor de capim ou grama na água) são
encontradas tanto no Reservatório da Billings como no Reservatório do
Guarapiranga. Por outro lado, as espécies tóxicas da Cylidrospermosis
raciborskii, Raphidiopsis sp e Limnothrix sp foram encontradas unicamente
no Reservatório Billings. Destaca-se que, no Reservatório do
Guarapiranga, utilizado para abastecimento público de significativa
parcela da cidade de São Paulo, existe a rotina de aplicação do sulfato
de cobre e, consequentemente, potencializa a liberação de hepatotoxinas
no manancial.
5. Conclusões
i. Os processos convencionais destinados ao tratamento da água para
consumo humano, não removem as microdoses originárias da dispersão
ambiental das substâncias químicas no ambiente ou toxinas resultantes da
proliferação de algas.
ii. A adequação da água dos sistemas públicos de abastecimento para
consumo humano aos Padrões de Qualidade podem ser inexeqüíveis pelos
seguintes riscos à saúde pública:
contaminação física, química ou biológica do manancial resultante
de· atividade antrópica;
incrementação das neurotoxinas ou hepatotoxinas· provenientes das
algas, como resultado da destruição das suas células após aplicação
de algicida;
formação de subprodutos durante a desinfecção· da água, alguns com
potencial cancerígeno, tais como o clorofórmio e outros trihalometanos;
infiltração de contaminantes domésticos ou industriais· na rede de
distribuição de água, especialmente em áreas que operam com pressão
negativa;
liberação de contaminantes por lixiviação de material· construtivo
das tubulações, muitos dos quais danosos no aspecto estético ou
econômico, mas não sanitário;
proteção e limpeza inadequada dos· Reservatórios de Água;
operação e manutenção do sistema de· . abastecimento deficiente ou
realizada com recursos humanos dotados de treinamento insuficiente.
iii. É necessário explicitar que a tecnologia convencional de tratamento
de água não remove as microdoses tóxicas e tem, como finalidade
precípua, a clarificação e destruição dos microrganismos
patogênicos, eliminando a possibilidade da água atuar como veículo de
enfermidades agudas. Deve-se também destacar que a existência de
sistemas públicos de abastecimento de água, por si só, não é garantia
automática de qualidade.
iv. As enfermidades crônicas geradas pela ingestão, ao longo de
décadas, das microconcentrações de contaminantes, tanto provenientes do
manancial como de subprodutos da desinfecção, somente podem ser
removidas através de tratamento avançados. Todavia, para que isto seja
viável, tem-se que desenvolver pesquisas em escala piloto para avaliar se
os contaminantes podem ou não serem removidos e, caso positivo, qual o
nível factível desta remoção. Citam-se como opções de tratamento a
adoção de leitos de carvão ativados com suficiente tempo de contato,
osmose reversa, eletrodiálise ou catálise heterogênea.
v. A Organização Mundial da Saúde, nos seus Guias para Qualidade da
Água Potável, alerta que a aplicação de sulfato de cobre para
controlar a proliferação das algas promove a liberação, no meio, de
toxinas(neurotoxinas ou hepatoxinas)6 e que os tratamentos convencionais
são de êxito duvidoso ou mesmo insuficientes para removê-las,
inclusive, mesmo empregando o carvão ativado da forma convencional.
vi. A desinfecção da água para consumo humano pelo cloro, reage com as
substâncias húmicas e fúlvicas resultantes da decomposição da biota
produzindo, no efluente final e ao longo do sistema de distribuição, o
clorofórmio e outros trihalometanos, com potencial cancerígeno. Embora
outros desinfetantes também produzam subprodutos da desinfecção de
efeitos adversos à saúde, sem dúvida, a questão da cloração foi a
mais estudada e existe tecnologia disponível para a remoção dos
precursores, como por exemplo, através de leitos de carvão ativado com
suficiente tempo de contato. Contudo, no Brasil, muito pouco se conhece a
respeito de investigações efetuadas acerca dos níveis e da remoção
dos trihalometanos(THM) nos sistemas públicos de abastecimento de água,
vinculados a estudos epidemiológicos que examinem o aumento de
concentração de THM com a elevação da incidência de câncer na
comunidade.
vii. O monitoramento da qualidade da água dos sistemas públicos de
abastecimento deve atualizar os instrumentos de diagnósticos, não
atestando a qualidade exclusivamente com base nos tradicionais parâmetros
físico-químicos e bacteriológicos. Com a ampliação do conhecimento
científico, é inadmissível que os sistemas de água não realizem
avaliação dos níveis de contaminação do sedimento e da água
superficial dos mananciais, utilizando ensaios de toxicidade, de
mutagenicidade, biomarcadores, exame de sulfetos acidos voláteis(AVS) e
carbono orgânico total(TOC). A constatação de um ecossistema sadio
sinaliza uma qualidade de água factível de ser tratada para posterior
consumo pelos seres humanos.
viii. O resultado dos exames na água dos mananciais superficiais, dos
subprodutos da cloração e produtos químicos suspeitos de ocasionar
danos à saúde pública deve estar associado ao acompanhamento de
enfermidades a longo prazo como forma de garantir a confiabilidade da
água destinada às comunidades.
ix. A responsabilidade pela qualidade de água para consumo humano cabe a
quem a produz e distribui - no caso, o sistema público de abastecimento.
Salienta-se que existe uma enorme defasagem entre o período de
distribuição da água e sua ingestão pelo consumidor com a
verificação de eventual efeito adverso à saúde do consumidor e, por
isso, as ações de controle da qualidade da água devem ser
essencialmente preventivas e com atuação desde o manancial até a
conexão de entrada da casa do usuário. O Princípio da Precaução
justifica a existência de uma AUDITORIA AMBIENTAL INDEPENDENTE,
assessorada por um Conselho de Representantes da comunidade técnica e
científica da sociedade civil, certificando, através de inspeções,
análises e estudos epidemiológicos, a qualidade da água do produtor.
*Ben Hur Luttenbarck Batalha é engenheiro, foi
Secretário do Meio Ambiente e é considerado hoje um dos maiores
especialistas brasileiros em qualidade da água.
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